Pas ensaia a democracia entre o cu e o inferno

'O processo de transio envolveo mais substancial realinhamentode poder poltico, militar, social eeconmico jamais completado'

Marginalizada durante sculos, amaioria negra dificilmente terpacincia para esperar muitotempo por uma vida melhor

Ao primeiro minuto da prxima quarta-feira as nove capitais provinciais da frica do Sul ouviro pela primeira vez, ao menos oficialmente, os sons de "Nkosi Sikeleli Afrika" ("Deus Abenoe a frica").

 o novo hino nacional oficial, depois de ter sido, anos a fio, o hino clandestinamente cantado pela maioria negra, submetida ao apartheid, o nefando regime de segregao racial.

Bem que a frica do Sul vai necessitar das benos dos deuses depois das eleies marcadas para os dias 26 a 28.

Em seus 1,22 milho de quilmetros quadrados, vo ensaiar uma difcil convivncia 40,4 milhes de pessoas, divididas entre 5,1 milhes de brancos, 3,4 milhes de mestios e 30,7 milhes de negros, por sua vez, subdividos em 11 etnias diferentes.

Desde que, em 1652, a Companhia Holandesa das ndias Orientais estabeleceu sua primeira colnia na costa sul-africana, brancos e negros amaram odiar-se. Antes e depois, negros de uma tribo matavam os de outra.

Em 1990, depois de 338 anos de cruentos conflitos, seus lderes decidiram trocar os fuzis pelo dilogo, em busca de um fim negociado do apartheid.

O processo reduzira  misria uma majoritria fatia da populao negra e conduzira ao fausto a elite branca.

As eleies desta semana so o ponto de chegada dessa negociao, um desses raros momentos que de fato merecem a qualificao de histricos.

At banqueiros, habitualmente frios, recorrem  retrica incandescente para avaliar a situao.

"O processo de transio em andamento envolve, talvez, o mais substancial realinhamento de poder poltico, militar, social e econmico jamais completado em uma mesa de negociao, em vez de no campo de batalha, incluindo o Oriente Mdio, a Europa Oriental e a antiga Unio Sovitica".

A avaliao foi publicada em folheto do Salomon Brothers, banco internacional de investimento.

Tarefa to ciclpica no se limitou, no entanto,  mesa de negociao. Por indefinidos campos de batalha ficaram, nesses quatro anos de dilogo, os corpos de 13.724 pessoas, conforme o mais recente cmputo da Comisso de Direitos Humanos.

Quase dez mortos por dia, s pela violncia poltica, sem contar a elevada cota da criminalidade comum (16 mil assassinatos apenas no ano de 1992).

Seria otimismo desmesurado supor que a realizao da primeira eleio multirracial, por mais histrica que seja, basta para pr fim  violncia, poltica ou comum.

Os conflitos tribais que ensaguentam boa parte do mapa africano e as guerras tnicas em plena Europa assombram uma frica do Sul democrtica.

"As experincias da frica independente, da Iugoslvia e da ex- URSS demonstraram claramente como  difcil substituir identidades tnicas individuais por um compromisso com um nico e abrangente nacionalismo", admite Zola Skweyiya, advogado do partido Conselho Nacional Africano (CNA), o mais provvel ganhador da eleio.

O perodo pr-eleitoral d razo a ele. Pelo menos uma parcela dos brancos comea a se concentrar em reas do Transvaal e do Estado Livre de Orange, na zona centro-oriental do pas.

 um ensaio para se criar um "Volkstaat" (ptria para os afrikners, os brancos sul-africanos).

Tambm a fatia dos zulus, a maior etnia negra (8,3 milhes), pretende fazer do KwaZulu (literalmente "o lugar dos zulus") um pas independente.

 essa presso de fundo tnico, soma-se a presso social. Marginalizada durante sculos, a maioria negra dificilmente ter pacincia para esperar muito tempo para ter a uma vida melhor.

Na edio que foi anteontem s bancas, o semanrio "The Weekly Mail and Guardian" publica histria na popular tira "Madame e Eva". Um casal de negros apresenta-se na casa de uma senhora branca, afirmando estar "caando casa para depois da eleio".

O casal encanta-se com o lustre de cristal, quando a dona avisa: "Sinto, mas a casa no est  venda". Os negros retrucam: "E quem disse algo sobre comprar?"

O alto nvel de expectativas da maioria negra com a troca de guarda no palcio governamental  admitido pela cpula do CNA.

"No h crime em as pessoas desejarem coisas que lhes dem uma vida melhor", afirma Cyril Ramaphosa, secretrio-geral do partido.

De fato no h crime em querer melhorar de vida. Mas tampouco h resposta para a pergunta que o Ramaphosa faz a respeito do futuro imediato: "Seremos capazes de satisfazer tais expectativas?"

Pelo menos no papel, o CNA promete muito: criar, em dez anos, 2,5 milhes de empregos, por meio de um programa nacional de obras pblicas; construir 1 milho de casas, em cinco anos; no mesmo prazo, colocar eletricidade em 2,5 milhes de residncias; prover dez anos de educao grtis e de qualidade para todos, dentro de meros 365 dias.

Se conseguir tudo isso e, ainda, controlar os previsveis conflitos tnicos, a frica do Sul nem precisar cantar "Nkosi Sikelele Afrika", porque j ter sido abenoada pelos deuses. Se no, ser apenas mais um inferno africano.(CR)
